Os primeiros meses de uma família reconstituída correm melhor quando os adultos baixam as expectativas, mantêm cada um a autoridade sobre os próprios filhos e dão às crianças tempo e espaço. A maior parte dos conflitos desta fase vem de oito erros que se repetem de casa para casa. Conhecê-los antes poupa muitas discussões à mesa do jantar.
Erro 1. Esperar amor imediato entre todos
Juntaste-te a alguém de quem gostas. Os teus filhos não escolheram essa pessoa, nem os filhos dela. Esperar que se tratem como irmãos ao fim de um mês, ou que o teu filho trate o teu companheiro com carinho espontâneo, é preparar uma desilusão. O objetivo realista dos primeiros meses é o respeito e a convivência tranquila. A afeição, se vier, vem depois e a um ritmo que não controlas.
Em vez disso: celebra os pequenos sinais. Um enteado que pergunta como correu o teu dia, duas crianças que jogam juntas dez minutos sem discutir. É assim que começa.
Erro 2. O padrasto ou a madrasta a impor regras logo de início
É talvez o erro mais frequente. O novo adulto da casa quer ajudar e começa a corrigir, a mandar arrumar, a definir horários. Para a criança, é um estranho a dar ordens na casa onde ela já vivia antes. A reação costuma ser rejeição, às vezes aberta, às vezes silenciosa.
Em vez disso: nos primeiros tempos, cada pai disciplina os próprios filhos. O padrasto ou a madrasta apoia as regras combinadas a dois, mas não as aplica sozinho. A autoridade conquista-se com a relação, não com a mudança de casa.
Erro 3. Mudar tudo ao mesmo tempo
Nova casa, nova escola, novos irmãos, novo adulto, novas regras. Cada uma destas mudanças é pesada. Juntas, num só verão, são demasiadas. As crianças que já atravessaram uma separação precisam de pontos fixos.
Em vez disso: se puderes, escalona. Mantém a escola, mantém as atividades, mantém rituais como o pequeno-almoço de sábado ou a ida à praia em setembro. Muda uma coisa de cada vez e espera que assente.
Erro 4. Não dar a cada criança um espaço que seja dela
Os filhos que vêm de quinze em quinze dias sentem facilmente que estão de visita. Dormir num sofá-cama na sala, ter as coisas numa mala, não ter onde deixar um desenho: tudo isso diz «esta casa não é tua».
Em vez disso: mesmo que o espaço seja pouco, cada criança precisa de um canto que é dela. Uma gaveta, uma prateleira, a escova de dentes que fica sempre no mesmo sítio. Quando as crianças partilham quarto com os novos irmãos, combinem juntos as regras do quarto, em vez de as impor.
Erro 5. Ignorar os dois calendários de guarda
Numa família reconstituída há, muitas vezes, dois regimes de guarda que se cruzam. Os teus filhos estão contigo em fins de semana alternados, os do teu companheiro em residência alternada, e de repente há fins de semana com cinco crianças em casa e outros com nenhuma. Sem planeamento, a casa vive aos solavancos e os adultos nunca têm tempo a dois.
Em vez disso: ponham os dois calendários lado a lado e decidam o ritmo da casa. Há quem prefira alinhar as guardas para ter todas as crianças nos mesmos fins de semana e ter fins de semana inteiros a dois. Há quem prefira o contrário, para que cada criança tenha momentos a sós com o seu pai ou a sua mãe. Se se conheceram no PAM, o Calendário de guarda já vos mostrava os dias em comum; continua a ser útil para ver, num relance, como fica cada semana da nova casa.
Se alguma destas guardas for residência alternada, convém conhecer o que diz a lei. Desde a Lei n.º 65/2020, o tribunal pode fixá-la mesmo sem acordo dos pais, quando corresponde ao superior interesse da criança, e a jurisprudência tem em conta a distância entre as casas. Uma mudança de casa para formar a família nova pode, por isso, mexer com o regime de guarda. Antes de mudar de cidade, fala com um advogado.
Erro 6. Falar mal do outro progenitor à frente das crianças
Às vezes não é o pai ou a mãe, é o novo companheiro que comenta, com um suspiro, o atraso do ex na entrega dos miúdos. As crianças ouvem tudo. E ficam presas entre lealdades: gostar do novo adulto parece trair o pai ou a mãe que vive na outra casa.
Em vez disso: regra de ouro em casa, o outro progenitor não se critica à frente das crianças, nem por palavras nem por olhares. Se a relação com o ex é tensa, o Sistema de Mediação Familiar, da Direção-Geral da Política de Justiça, pode ajudar os pais a acordar soluções sem que os filhos fiquem no meio.
Erro 7. Esquecer o casal
Com tanta energia posta nas crianças, os adultos deixam de ter tempo um para o outro. Ao fim de seis meses, gerem uma casa juntos mas já não se lembram porque quiseram fazê-lo. Uma família reconstituída assenta no casal. Se ele vacila, tudo vacila.
Em vez disso: protejam pelo menos uma noite ou uma manhã por semana só para os dois, mesmo que seja um café no fim da rua no dia em que todas as crianças estão na outra casa. E falem de outras coisas que não sejam a logística das guardas.
Erro 8. Sentir que falhas quando custa
Haverá noites em que te perguntas se fizeste bem. Um enteado que bate com a porta, um filho que diz que preferia a vida de antes, uma discussão com o teu companheiro sobre os trabalhos de casa. Isto não é sinal de fracasso. É a fase de adaptação, e quase todas as famílias reconstituídas passam por ela.
Em vez disso: procura quem já passou pelo mesmo. No fórum O Círculo, o espaço de entreajuda do PAM, há pais e mães em famílias reconstituídas que partilham o que funcionou e o que não funcionou, e podes publicar de forma anónima se preferires. Se o conflito se instalar, um terapeuta familiar ajuda a desatar os nós.
Antes de chegar aqui
Se ainda não vivem juntos, o plano em etapas para apresentar um novo companheiro aos filhos trata da fase anterior. Para perceber como os diferentes regimes de guarda se cruzam, vê os exemplos de regime de visitas comparados. Se a nova família se instala no Algarve e os horários de trabalho mudam com a época, há uma página sobre pais solteiros em Faro. E para conhecer o PAM, começa pela página da app de encontros para pais solteiros.
Descarrega o PAM →Perguntas frequentes
- O que é uma família reconstituída?
- É uma família em que pelo menos um dos adultos tem filhos de uma relação anterior e vive com um novo companheiro, que pode ter ou não filhos. As crianças passam muitas vezes parte do tempo noutra casa.
- Quanto tempo demora uma família reconstituída a adaptar-se?
- Não há uma duração fixa. Depende da idade das crianças, do número de mudanças em simultâneo e da relação entre os ex-companheiros. O importante é não forçar a afeição e dar pontos fixos às crianças.
- O padrasto ou a madrasta pode castigar os enteados?
- Nos primeiros tempos é melhor não. Cada pai educa os próprios filhos e o novo adulto apoia as regras combinadas. A autoridade constrói-se com a relação, ao longo do tempo.
- Mudar de casa para viver juntos pode afetar a guarda?
- Pode, sobretudo se a distância entre as casas dos pais aumentar, porque a jurisprudência tem em conta essa distância. Antes de uma mudança importante, fala com um advogado ou recorre à mediação familiar.
- Como organizar dois calendários de guarda numa só casa?
- Põe os dois calendários lado a lado e decide com o teu companheiro se querem alinhar as guardas ou alterná-las. O Calendário de guarda do PAM ajuda a ver os dias com e sem crianças de cada lado.